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25.1.14

Fui praxada e não gostei.

A minha primeira, péssima, experiência com praxes foi quando entrei num colégio interno com 9 aninhos apenas.

O tão prestigiado Instituto de Odivelas foi, durante dois anos, o meu maior pesadelo. Desde o primeiro dia que experimentei as tão "divertidas" praxes.

Acabadinha de sair da quarta classe, e como se não bastasse ter de me vestir com um uniforme horroroso e só ver os meus pais ao fim-de-semana, fui recebida por umas alunas do mais fofinho que existe.

A partir desse dia passei a ser tratada por um número. Sorte minha que a última rapariga que tinha tido o meu número era amada pela maioria. O que não me livrou de ser praxada, só não o era tantas vezes.

Haviam as praxes mais, ditas, normais, aquelas que são feitas nos átrios e claustros, onde nos punham a cantar e a dançar ao som do malhão. Era divertido? Não!
E depois haviam as muito más. Não eram praxes era terrorismo!

A que tenho mais presente foi quando as mais velhas andaram a aterrorizar as mais novas, espalhando a noticia, de que todas teríamos de ir a um ginecologista e que ele nos iria ver todas nuas para nos contar os pêlos púbicos com uma máquina. Parece uma parvoíce, ter sequer acreditado numa história mirabulante dessas, mas lembrem-se que eramos meninas de 9 anos!

Achei divertido? Eu não, as praxantes devem ter achado, com os seus ares de superiores.
Serviu para me intrusar com a malta? Não! Só me apetecia fugir dali e nunca ver aquelas pessoas.

De todas as vezes, senti-me humilhada e muito muito pequenina. Acredito mesmo que foi uma experiência que mais tarde me trouxe muitos problemas de auto-confiança.

Apesar disso a escola tinha um ensino excelente, eu adorava os professores e a oportunidade de ter disciplinas como teatro ou música ou por ter educação física a sério, daquela que vemos nos olímpicos.

Ao fim de dois anos estava um farrapo, chamem-me fraca (uma fraca menina de 10 anos) mas não conseguia lidar com aquelas "brincadeiras" diariamente. Se não era comigo era com colegas minhas e isso não era melhor. Como da vez que obrigaram uma amiga a simular sexo com o tronco duma árvore.

Acabei por sair, com o apoio da minha mãe, que nem por sombras soube do que se passou por lá, e contra a vontade do meu pai, que achava que ali eu teria mais e melhores oportunidades.

Depois veio o resto do ciclo e o secundário numa escola pública... aí e que paz que foi.

Só tive de voltar a pensar em praxes quando entrei no ISA.

No alto dos meus 18 anos, aquela altura em que achamos que já somos muito crescidos e que sabemos tudo, pensei cá para mim: "Bem, as praxes no IO eram abusivas e afinal eu tinha só 9 anos. Vamos cá dar uma oportunidade a isto e entrar no espírito da coisa."

As praxes no ISA são assim mais viradas para a natureza, ou não fosse uma universidade de agronomia... depois de escrito a batom, na testa, as siglas do nosso curso há uma série de aventuras campónias.

Alinhei no primeiro dia. Acabei num pântano, que cheirava a esgoto até à quarta casa, toda vestida. Voltei para casa, no 24, toda molhada e cheguei a casa gelada e a chorar no colo da minha mãe.

Achei divertido? Não.
Serviu para me intrusar com a malta? Não. Serviu para só voltar à universidade passada uma semana. Altura em que os meus colegas de turma já se tinham conhecido, o que acabou por tornar mais difícil a minha inserção na turma. Hoje, um dos meus melhores amigos conheci na universidade e não precisámos de ser praxados juntos.

Nunca mais aceitei ser praxada. E nessas alturas sentia-me poderosa. Para mim, aceitar uma praxe, ou não, era a mesma coisa que me perguntarem se queria ser humilhada.

Chamem-me esquisita mas a humilhação, própria ou alheia, é uma coisa que me dá vómitos.

Depois dizem: "Ah mas ninguém as obriga, fazem porque querem.". Claro que fazem porque querem, mas é como ir almoçar a primeira vez com os vossos sogros e comer o fantástico arroz de coelho, que odeiam e que não comiam há mais de 10 anos, só para parecer bem e serem aceites. 

Vai-se a ver a conclusão é bastante simples:

Apesar de haver gente que se diverte com as praxes, há muita gente que sofre com as praxes. E só por isso, por essa mão cheia de gente que se sente pequenina, muito pequenina quando é praxada, já havia de se falar na possibilidade de acabar com essas humilhações, ups desculpem, praxes!

Uma coisa boa tirei das minhas experiências, um sentido de justiça que hás vezes me traz alguns amargos de boca mas que são causas que me dão um sentido de humanidade fortíssimo. Que nunca me obriguem a humilhar ou ser injusta para as outras pessoas, e isso já me fez despedir de pelo menos dois empregos. Ganhei alguma coisa com isso?? Sem dúvida!! Consciência tranquila e óptimas horas de sono.

17 comentários:

Anónimo disse...

Engraçado quando somos nós o gozados não gostamos nada, mas gozar com os outros é que é giro...não é Andreia...fazer um post em que se passa por coitadinha e esquece-se por completo o que fez a alguns colegas pelo caminho

Impressão da Papoila disse...

Deixas-te-me curiosa. Devo estar com um grande ataque de amnésia porque não me lembro de alguma vez ter falto mal a algum colega.
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Elix disse...

Concordo a 100%, bem dito, sim senhor...

Marina Borges disse...

Nunca no io me senti humilhada com qualquer praxe....talvez a distância ainda não seja suficiente para analisar correctamente o q la se passava...porq apenas colocar no mesmo texto as praxes do io e universitárias é já, na minha perspetiva, ridículo.Boa sorte irmã!

Impressão da Papoila disse...

Marina fico contente que nunca te tenhas sentido humilhada com as praxes. Sinceramente.
Aliás, reencontrei uma colega do IO no ISA, para quem a experiência tinha sido uma maravilha. Mas para tu veres como esses 2 anos mexeram comigo, e como eu inconscientemente fiz de tudo para esquecer aquela experiência, posso-te contar que teve que ser essa ex-colega a mostrar-me uma foto de turma, onde eu estava ao lado dela , para eu acreditar que ela tinha sido minha colega, de turma.
Eu senti-me humilhada, muito. Mas cada indivíduo sente de forma diferente.

Entre escolher um futuro para os meus filhos, ou filhos dos meus amigos, onde continue a haver praxes e outro onde não existam, eu escolho, sem dúvida o segundo cenário. Mas esta é apenas a minha opinião.

Já nem me lembrava que nos tratávamos por irmãs... mas guardei o meu "lacinho" verde com carinho porque foi sem dúvida a escola onde tive os melhores professores e ensino.

Toribia disse...

Ao rever a minha passagem pelo IO não me lembro de praxe alguma lembro-me sim de ser acarinhada pelas mais velhas, ser irmã de uma finalista também ajudou esse carinho, mas de qualquer forma não me lembro de praxe alguma feita por elas. Lembro-me sim das partidas que fazíamos umas às outras, como por exemplo contar estórias da Madre Paula, mas isso era entre iguais e não como demonstração de poder.

Impressão da Papoila disse...

Toribia eu andei no IO ha mais de 20 anos. Não sei se as nossas vivências são comparáveis.
Tens razão quando dizes que ser irmã duma mais velha ajudava.
A minha experiência foi outra. Nem nunca me viria embora dum sítio onde me sentisse tão bem como relatas e onde tinha tantas oportunidades de aprendizagem.
Respeito as vossas experiências. Só peço que respeitem a minha também.

Toribia disse...

Há mais de vinte anos, bem devemos ser mais ou menos contemporâneas, eu respeito tudo, só não posso respeitar algo que deve ter sido vivido em pesadelos...como o monstro papão debaixo da cama. Como respeitar alguém que se esconde sobre o nome de papoila e que fala abertamente de uma instituição que já deu mais que provas da sua excelência em tudo. Difamar é punível por lei.

Alexandra Anselmo disse...

Praxes no IO? O quê, despentear caloirinhas? Contar que havia fantasmas de freiras? Uuuuiii que trauma! Sei de ex-alunas que ficaram traumatizadas com uma ou outra professora ou monitora mas com praxes? Nunca ouvi tal coisa! Nao sei em que altura e que andaste no IO mas parece-me que nao devemos ter grande diferenca de idade.

Anónimo disse...

Pois deves sofrer de amenésia seletiva também...olha que eu lembro-me de alguns casos... normelmente que faz esquece quem sofre lembra-se

Bells disse...

Entrei no IO vai fazer este ano (em Setembro) 14 anos e, apesar de me ter sentido um pouco assustada com as histórias de madre Paula que as mais velhas nos contavam (pois afinal era uma miúda), nunca me senti humilhada numa praxe efectuada nesta instituição, porque mesmo quando uma única aluna o tentou fazer, a pedido de uma colega que não gostava de mim, todas as outras impediram tal coisa dado aquele não ser o objectivo pretendido. Nunca assisti a uma praxe de teor sexual e o máximo que me mandavam fazer nos claustro, à hora do intervalo, foi levar pacotes de leite com chocolate para o lixo ou passarem à minha frente na fila do lanche, por serem de casaco verde. Fora isso...nada de mais! Lá criei amizades que já duram uma vida e a todas elas posso chamar de verdadeiras amigas e irmãs.
Não sei como podes comparar as praxes que existiram no IO (pois, pelo que tenho conhecimento, deixaram de existir quando ainda lá andava e nunca mais voltaram, apesar dos pedidos inssistentes das várias alunas, incluindo as mais pequenas)com as praxes praticadas em certas instituições de ensino superior...sim, porque nem todas estas instituições efectuam más práticas no que se refer à praxe. Penso que deverias te informar melhor e não seres tão extremista porque, só porque tiveste uma má experiência, não significa que tudo relativo à praxe seja mau. Aliás, existem muitas instituições de ensino superior que aproveitam a semana de praxe para realizarem um projecto social, logo nem tudo é mau. E quanto ao IO...nem todas as meninas que lá estiveram nasceram para estar e perceber aquele lugar, mas quem lá viveu de verdade sabe que aquela escola dá tanto às suas meninas/mulheres que não são pequenas adversidades que fazem desistir de uma "casa", a meu ver, excelente como esta. Brincar com uma "pinta" (nome que se dava às novas alunas) não é humilhá-la ou tratá-la mal...muito pelo contrário. E eu nunca assisti a nada que não fosse brincadeira e integração numa grande família colegial.

Ex-aluna 127

Guida disse...

Entrei no IO em 1967 e a única praxe que tive foram as mais velhas cantarem "Ximpopoo caloirada" quando passavam por nós caloiras. Mais nada. Até 1974, nunca vi outra praxe no IO.

Cláudia disse...

Andei no IO na mesma altura da autora deste blog. Se virem 2 posts abaixo deste, ela diz que tem 32 anos. E não se esconde: tem várias fotos de si própria aqui mesmo. O que conta é verdade. A diferença é que aquilo que para ela foram praxes para mim foram brincadeiras. É natural que pessoas diferentes sintam as coisas de forma diferente. Não vejo onde está a difamação. Devemos respeitar e tolerar opiniões diferentes. Fico espantada com estes comentários agressivos de outras alunas do IO. Não os vejo de outras pessoas do ISA, donde a autora também relata más experiências. Porque é que lidam tão mal sempre que alguém vem a público contar experiências diferentes das vossas no IO? Que intolerância e agressividade é essa? Quem vos lê e não conhece o IO, pensa de certeza que é um sítio donde saem pessoas de mente fechada e muito pouco tolerantes à diferença.

Anónimo disse...

As vezes temos que ter cuidado com o que escrevemos. Numa escola que nem sequer tem a tradição de praxes agressivas (e no meu tempo não me lembro sequer de qualquer praxe e também lá andei há mais de 20 anos), escrever qualquer coisa como essa num blog, acaba por ser uma generalização de algo que não existe e nunca existiu em prol de um sucesso de um post e de um tema do momento! Sentir-se traumatizada para a vida com o fato de uma aluna mais velha informar que tem que passar pelo ginecologista... é no minimo excessivo não??? Mesmo tendo 9 ou 10 anos! :) Elsa M.

Impressão da Papoila disse...

Ai minhas senhoras... sabem que mais?
De repente senti-me no IO novamente!

Até já insinuaram que sou tolinha... enfim, se me processarem posso sempre alegar insanidade mental.

No meio de tantos comentários meiguinhos só a Cláudia compreendeu o que contei. Diz ela que encarou como brincadeiras, o que eu senti como humilhações. Porém não é por isso que eu a vou distratar e insinuar que é mentirosa. Sabem porquê? Primeiro porque que acredito que para ela as coisas foram sentidas de forma diferente e depois porque respeito a opinião dos outros... é uma característica chata que eu tenho.

Este meu pequenino blogue costuma ter umas 20 visualizações por dia, maioritariamente pessoas muito próximas.
Nunca tive tantos comentários e visualizações como com este post, mas não fico nada contente com isso, como querem fazer crer. Aliás, já me arrependi de ter publicado este post.

Ainda pensei em retirá-lo mas não faria sentido. Estaria a negar o que eu tenho a certeza que me aconteceu. Tal como continuo a permitir a publicação dos fofinhos comentários que me têm enviado, apesar de não ser obrigada a fazê-lo.

Agora, se me permitem, vou viver a minha vida de Papoila e continuar a ser feliz.

Maria Lisboa disse...

Papoila, deixar de escrever porque há quem critique o que escreveu? Que disparate! Escreva, escreve sempre! O que lhe apetecer! A liberdade de expressão em democracia é um direito fundamental de cujo exercício não devemos abdicar nunca. A submissão faz-nos súbditas e não cidadãs. Aliás a divergência é enriquecedora e não devemos receá-la. Deixei o IO há 50 anos e não me recordo de praxes (não, ainda não é falta de memória!) mas num internato de adolescentes muita coisa pode acontecer e é sabido que se pode ser muito cruel naquelas idades.

Isabel disse...

Entrei no Colégio há 54 anos. Tinha 10 anos e a minha casa e os meus pais estavam a 300km. Cerca de um mês depois, durante o recreio do lanche, 3 ou 4 colegas, mais velhas uns dois ou três anos, vieram ter comigo, entregaram-me um lápis pequeno e mandaram-me medir a largura da porta da Sala do Capítulo. Lá me pus eu de cócoras, fiz o que me disseram, elas riram-se muito e eu também e fomos todas à nossa vida. Olhando para trás - no meu tempo de Faculdade não havia praxes em Lisboa-, acabo de descobrir que fui praxada no Instituto de Odivelas.