A minha primeira, péssima, experiência com praxes foi quando entrei num colégio interno com 9 aninhos apenas.
O tão prestigiado Instituto de Odivelas foi, durante dois anos, o meu maior pesadelo. Desde o primeiro dia que experimentei as tão "divertidas" praxes.
Acabadinha de sair da quarta classe, e como se não bastasse ter de me vestir com um uniforme horroroso e só ver os meus pais ao fim-de-semana, fui recebida por umas alunas do mais fofinho que existe.
A partir desse dia passei a ser tratada por um número. Sorte minha que a última rapariga que tinha tido o meu número era amada pela maioria. O que não me livrou de ser praxada, só não o era tantas vezes.
Haviam as praxes mais, ditas, normais, aquelas que são feitas nos átrios e claustros, onde nos punham a cantar e a dançar ao som do malhão. Era divertido? Não!
E depois haviam as muito más. Não eram praxes era terrorismo!
A que tenho mais presente foi quando as mais velhas andaram a aterrorizar as mais novas, espalhando a noticia, de que todas teríamos de ir a um ginecologista e que ele nos iria ver todas nuas para nos contar os pêlos púbicos com uma máquina. Parece uma parvoíce, ter sequer acreditado numa história mirabulante dessas, mas lembrem-se que eramos meninas de 9 anos!
Achei divertido? Eu não, as praxantes devem ter achado, com os seus ares de superiores.
Serviu para me intrusar com a malta? Não! Só me apetecia fugir dali e nunca ver aquelas pessoas.
De todas as vezes, senti-me humilhada e muito muito pequenina. Acredito mesmo que foi uma experiência que mais tarde me trouxe muitos problemas de auto-confiança.
Apesar disso a escola tinha um ensino excelente, eu adorava os professores e a oportunidade de ter disciplinas como teatro ou música ou por ter educação física a sério, daquela que vemos nos olímpicos.
Ao fim de dois anos estava um farrapo, chamem-me fraca (uma fraca menina de 10 anos) mas não conseguia lidar com aquelas "brincadeiras" diariamente. Se não era comigo era com colegas minhas e isso não era melhor. Como da vez que obrigaram uma amiga a simular sexo com o tronco duma árvore.
Acabei por sair, com o apoio da minha mãe, que nem por sombras soube do que se passou por lá, e contra a vontade do meu pai, que achava que ali eu teria mais e melhores oportunidades.
Depois veio o resto do ciclo e o secundário numa escola pública... aí e que paz que foi.
Só tive de voltar a pensar em praxes quando entrei no ISA.
No alto dos meus 18 anos, aquela altura em que achamos que já somos muito crescidos e que sabemos tudo, pensei cá para mim: "Bem, as praxes no IO eram abusivas e afinal eu tinha só 9 anos. Vamos cá dar uma oportunidade a isto e entrar no espírito da coisa."
As praxes no ISA são assim mais viradas para a natureza, ou não fosse uma universidade de agronomia... depois de escrito a batom, na testa, as siglas do nosso curso há uma série de aventuras campónias.
Alinhei no primeiro dia. Acabei num pântano, que cheirava a esgoto até à quarta casa, toda vestida. Voltei para casa, no 24, toda molhada e cheguei a casa gelada e a chorar no colo da minha mãe.
Achei divertido? Não.
Serviu para me intrusar com a malta? Não. Serviu para só voltar à universidade passada uma semana. Altura em que os meus colegas de turma já se tinham conhecido, o que acabou por tornar mais difícil a minha inserção na turma. Hoje, um dos meus melhores amigos conheci na universidade e não precisámos de ser praxados juntos.
Nunca mais aceitei ser praxada. E nessas alturas sentia-me poderosa. Para mim, aceitar uma praxe, ou não, era a mesma coisa que me perguntarem se queria ser humilhada.
Chamem-me esquisita mas a humilhação, própria ou alheia, é uma coisa que me dá vómitos.
Depois dizem: "Ah mas ninguém as obriga, fazem porque querem.". Claro que fazem porque querem, mas é como ir almoçar a primeira vez com os vossos sogros e comer o fantástico arroz de coelho, que odeiam e que não comiam há mais de 10 anos, só para parecer bem e serem aceites.
Vai-se a ver a conclusão é bastante simples:
Apesar de haver gente que se diverte com as praxes, há muita gente que sofre com as praxes. E só por isso, por essa mão cheia de gente que se sente pequenina, muito pequenina quando é praxada, já havia de se falar na possibilidade de acabar com essas humilhações, ups desculpem, praxes!
Uma coisa boa tirei das minhas experiências, um sentido de justiça que hás vezes me traz alguns amargos de boca mas que são causas que me dão um sentido de humanidade fortíssimo. Que nunca me obriguem a humilhar ou ser injusta para as outras pessoas, e isso já me fez despedir de pelo menos dois empregos. Ganhei alguma coisa com isso?? Sem dúvida!! Consciência tranquila e óptimas horas de sono.
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O tão prestigiado Instituto de Odivelas foi, durante dois anos, o meu maior pesadelo. Desde o primeiro dia que experimentei as tão "divertidas" praxes.
Acabadinha de sair da quarta classe, e como se não bastasse ter de me vestir com um uniforme horroroso e só ver os meus pais ao fim-de-semana, fui recebida por umas alunas do mais fofinho que existe.
A partir desse dia passei a ser tratada por um número. Sorte minha que a última rapariga que tinha tido o meu número era amada pela maioria. O que não me livrou de ser praxada, só não o era tantas vezes.
Haviam as praxes mais, ditas, normais, aquelas que são feitas nos átrios e claustros, onde nos punham a cantar e a dançar ao som do malhão. Era divertido? Não!
E depois haviam as muito más. Não eram praxes era terrorismo!
A que tenho mais presente foi quando as mais velhas andaram a aterrorizar as mais novas, espalhando a noticia, de que todas teríamos de ir a um ginecologista e que ele nos iria ver todas nuas para nos contar os pêlos púbicos com uma máquina. Parece uma parvoíce, ter sequer acreditado numa história mirabulante dessas, mas lembrem-se que eramos meninas de 9 anos!
Achei divertido? Eu não, as praxantes devem ter achado, com os seus ares de superiores.
Serviu para me intrusar com a malta? Não! Só me apetecia fugir dali e nunca ver aquelas pessoas.
De todas as vezes, senti-me humilhada e muito muito pequenina. Acredito mesmo que foi uma experiência que mais tarde me trouxe muitos problemas de auto-confiança.
Apesar disso a escola tinha um ensino excelente, eu adorava os professores e a oportunidade de ter disciplinas como teatro ou música ou por ter educação física a sério, daquela que vemos nos olímpicos.
Ao fim de dois anos estava um farrapo, chamem-me fraca (uma fraca menina de 10 anos) mas não conseguia lidar com aquelas "brincadeiras" diariamente. Se não era comigo era com colegas minhas e isso não era melhor. Como da vez que obrigaram uma amiga a simular sexo com o tronco duma árvore.
Acabei por sair, com o apoio da minha mãe, que nem por sombras soube do que se passou por lá, e contra a vontade do meu pai, que achava que ali eu teria mais e melhores oportunidades.
Depois veio o resto do ciclo e o secundário numa escola pública... aí e que paz que foi.
Só tive de voltar a pensar em praxes quando entrei no ISA.
No alto dos meus 18 anos, aquela altura em que achamos que já somos muito crescidos e que sabemos tudo, pensei cá para mim: "Bem, as praxes no IO eram abusivas e afinal eu tinha só 9 anos. Vamos cá dar uma oportunidade a isto e entrar no espírito da coisa."
As praxes no ISA são assim mais viradas para a natureza, ou não fosse uma universidade de agronomia... depois de escrito a batom, na testa, as siglas do nosso curso há uma série de aventuras campónias.
Alinhei no primeiro dia. Acabei num pântano, que cheirava a esgoto até à quarta casa, toda vestida. Voltei para casa, no 24, toda molhada e cheguei a casa gelada e a chorar no colo da minha mãe.
Achei divertido? Não.
Serviu para me intrusar com a malta? Não. Serviu para só voltar à universidade passada uma semana. Altura em que os meus colegas de turma já se tinham conhecido, o que acabou por tornar mais difícil a minha inserção na turma. Hoje, um dos meus melhores amigos conheci na universidade e não precisámos de ser praxados juntos.
Nunca mais aceitei ser praxada. E nessas alturas sentia-me poderosa. Para mim, aceitar uma praxe, ou não, era a mesma coisa que me perguntarem se queria ser humilhada.
Chamem-me esquisita mas a humilhação, própria ou alheia, é uma coisa que me dá vómitos.
Depois dizem: "Ah mas ninguém as obriga, fazem porque querem.". Claro que fazem porque querem, mas é como ir almoçar a primeira vez com os vossos sogros e comer o fantástico arroz de coelho, que odeiam e que não comiam há mais de 10 anos, só para parecer bem e serem aceites.
Vai-se a ver a conclusão é bastante simples:
Apesar de haver gente que se diverte com as praxes, há muita gente que sofre com as praxes. E só por isso, por essa mão cheia de gente que se sente pequenina, muito pequenina quando é praxada, já havia de se falar na possibilidade de acabar com essas humilhações, ups desculpem, praxes!
Uma coisa boa tirei das minhas experiências, um sentido de justiça que hás vezes me traz alguns amargos de boca mas que são causas que me dão um sentido de humanidade fortíssimo. Que nunca me obriguem a humilhar ou ser injusta para as outras pessoas, e isso já me fez despedir de pelo menos dois empregos. Ganhei alguma coisa com isso?? Sem dúvida!! Consciência tranquila e óptimas horas de sono.