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10.4.15

Porquê?

Ontem, vinha do trabalho às 11 da noite. Chovia. A caminho de casa no meio da estrada vi uns olhinhos a reflectir as luzes dos faróis do meu carro. Era um cão, completamente desorientado, parado no meio da estrada. Parei o carro e recolhi o piruçinhas, molhado a tremer de medo e de frio. Tinha uma coleira e uma corda grande agarrados a si. De perto deu para perceber que estava cego mas ainda assim deixou-se agarrar e veio até nossa casa calminho.

Entrou a medo, mas em poucos minutos entrou em modo de agradecimento e não nos largou mais. Depois de um banhinho quente, entre abraços, turrinhas e beijinhos, a nós os dois, ainda comeu como se não houvesse amanhã. Dizem que os animais são como os donos e talvez assim seja mesmo. Os nossos gatos, Romeo e Julieta, não fugiram quando viram o piruçinhas, chegaram-se perto, muito perto. Até a trombudona da nossa Julieta quis conhecer aquele ser, para ela completamente desconhecido. O nosso Romeo, um bonacheirão, chegou mesmo a dar toquezinhos de nariz com o  pirucinhas. 

Dormiu ao lado da nossa cama, sossegadinho a noite toda. O Romeo e a Julieta respeitaram o espaço do pirucinhas e perceberam que hoje não poderiam dormir aos nossos pés. Não ficaram zangados, só respeitaram.



Como encontrei o piruçinhas com coleira e "trela" achei mesmo que teria fugido de um quintal e hoje de manhã bati às portas das casinhas baixas, que rodeiam o sítio onde o encontrei. Nada! Ninguém o reconhecia.

Pedi ajuda a uma associação que sei por experiência própria ser incasável a ajudar os animais aflitos - a Rede Leonardo - que, na minha aflição, me indicou o canil das Caldas para entregar o piruçinhas. Canil, que a senhora fez questão de dizer, não ser canil de abate e de ter colaboradores que diariamente dão comida e carinho aos cães.

Achei mesmo que ia encontrar o dono do piruçinhas, mas não encontrei.

Tive de passar à câmara para falar com a veterinária. Só ela poderia encaminhar o pirucinhas para uma box no canil. O preconceito com as entidades públicas, levaram-me com desânimo a caminho da câmara. Mas enganei-me! Fui logo atendida pela Dra. Daniela que autorizou logo um cantinho no canil para o pirucinhas. Tratou também logo da partilha das fotos pelos seus contactos. Em menos de 10 minutos o pirucinhos estava entregue às mãos, bondosas, dos voluntários do canil das Caldas.

O Canil das Caldas é sujo? Não. 
Está sobrelotado? Não. Tem espaço amplo e box individuais, onde um piruçinhas cego tem melhores condições. 
Os voluntários tinham ar de carrascos? Não. Tinham olhos meigos, daqueles que sabemos que são o espelho de um coração cheio de caridade.
O piruçinhas era meu? Não. Recolhi-o no meio da estrada, numa noite fria e chuvosa.
Abandonei o piruçinhas no canil? Não. entreguei-o a quem pudesse cuidar dele já que eu não tinha como o fazer.

Mas então porque sinto que fiz uma boa acção podre? Porquê?

2 comentários:

colibri esverdeado disse...

Não sintas isso, querida Papoila! Se todos fizessem o que tu fizeste, não haveria tanto animal morto na estrada e, muitos deles, procurados desesperadamente pelos seus donos, sem nunca saber qual foi o seu desfecho. É natural que o teu coração de manteiga queria muito ficar com o Pirucinhas, especialmente ao ver que ele próprio te foi tão grato e pelos companheiros da casa também o terem recebido tão bem... mas nem sempre as coisas podem desenvolver como nós queremos e fizeste o mais acertado! Ainda hoje li mais uma atrocidade em relação a um cão e quem dera a mim que todas as pessoas que não podem ou não querem manter um cão o entregassem a uma entidade! O Pirucinhas já te é grato por toda a vida dele por isso só tens é que estar feliz :) Beijo!

Impressão da Papoila disse...

Obrigada pela força e pelo miminho Colibri <3