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12.11.16

#cookingislove

Esta é a hashtag que uso sempre que coloco fotos dos meus cozinhados no meu Instagram. Não a escolhi porque é fixe, porque soa muito bem ou porque atrai mais gostos... Escolhi-a porque acredito verdadeiramente que cozinhar é uma oportunidade que temos para mostrar aos outros o quanto gostamos ou não deles. Tantas vezes me apanho a cozinhar e a relembrar pessoas durante o processo, porque a comida tem esse poder... O poder de nos marcar o coração, de nos alimentar memórias. Algumas que queremos relembrar sempre e outras que ainda meio tristes, estão tão gravadas naquele ingrediente ou prato que mesmo que façamos muita força nunca os conseguimos dissociar dum momento do passado.




Com 35 anos sinto que vou somando pessoas aos ingredientes e comidas... Ainda (espero) tenho tantos anos de comidas pela frente, indo somando mais pessoas e momentos ao meu cardápio e isso é fabuloso. O poder da comida é algo que me deixa verdadeiramente emocionada. Também pudera...

A SOPA DE TOMATE, com pão mole a boiar, ovos escalfados e tiras de cebola toscamente cortadas lado a lado são o cheiro da minha avó (só de lembrar choro)... As duas de volta dum fogão grande daqueles rectangulares com bicos dourados e gastos de tanto arear... O ritual de no final ir à horta do avô buscar hortelã para aromatizar a sopa, a preferida do seu querido genro, que a comia ainda a escaldar, com um prazer que até o bigode pingado de caldo vermelho tomate era só limpo no final do prato todo comido... ahhh o "prato do cavalinho". Este é sem dúvida o prato que eu mais amo, um prato de tal simplicidade, que só eu sei a receita porque era a única que não me importava de ficar encostada ao fogão com a minha avô marrequinha, um prato que me enche de lágrimas de alegria e o coração de amor. Sempre que o cozinho volto a ser aquela Andreia, na cozinha humilde mas enorme da minha avô Lurdes. Ela que foi o ser humano com quem passei os melhores momentos da minha vida e a quem devo quase tudo do que sou... 

O TOMATE? Esse é avô Alberto. Era um dos meus momentos preferidos com o meu avô, tantas vezes ausente, avô de silêncios, até meio desajeitado no relacionar com as pessoas. Era um tipico avô que não tem grande tema de conversa mas que preenchia os nossos momentos com silêncios de aprendizagem. Ele não me chamava mas eu seguia-o até à horta, ficava a vê-lo apanhar as ervas, a sachar a apanhar os tomates... No meio dos silêncios dizia coisas como "vês "Raposinha", estes estão prontos a comer." Ajudava-o a carregar os tomates para a mesa do quintal e pelo caminho lá ia comendo um tomate ainda quente mas delicioso... aiii aquele aroma de tomate, não do interior mas sim a fragrância do verde das folhas sobre a pele do tomate, deixando aquela textura quase que aveludada picante... indescritível. Sempre que compro tomate cheiro-o e por isso quase sempre, excepto no Verão na época deles, opto sempre pelo tomate de rama que tem um bocadinho do cheiro a avô Alberto.

A minha mãe cozinhava para nos alimentar para nos manter vivos, isto sem apontar dedo que nem todos temos que gostar de cozinhar, mas eu não consigo cozinhar ARROZ DE TOMATE sem me lembrar dela. É talvez a única comida que aprendi com a minha mãe e pelos vistos cumpres-se o "mais vale uma coisa muito bem feita que muitas coisas feitas mais ou menos" porque toda a gente adora o meu arroz de tomate. Eu, não consigo comer sem vinagre, muito vinagre, como o comia o meu pai sempre.

O meu pai aparece para mim sempre no final de fritar carne na frigideira... Aquele momento em que aos sucos da carne, ao caramelizado à volta e ao alho junto um copinho de vinho para fazer aquele MOLHO DE BIFE... Era um prato que invariavelmente associo ao meu pai. Então se for acompanhado com esparguete viajo para a nossa sala minúscula, no Cacém, num Sábado ao almoço.

Difícil para mim é não associar um prato a uma pessoa ou local...

FRANGO DE CERVEJA é tia Rosa e tio Licas, dos primeiros pratos "diferentes" que aprendi a fazer. Feito na cozinha com a tia depois de virmos os três da praia... E por falar neles CERALAC é prima Ritinha...

XAPUTA FRITA é tia Teresa. Tia de mão condimentada, tradicional e gordurenta. Comida que enche o coração e as células adipócitas. 

ARROZ BRANCO luminoso e guloso é tia Céu. O arroz que faço quando não tenho mais nenhuma ideia de acompanhamento... é sempre arroz vencedor. Aquele arroz que sabe a comida de restaurante caseiro... Aquele arroz sem o qual a dobrada da minha tia não sobreviveria. Da minha tia lembro sempre também o bacalhau com natas porque o associo a um momento tão forte da minha vida... O dia em que soube que a minha prima Filipa tinha saído de casa, que deixara de ser a minha prima pequenina e que passara a ser adulta... Estava a comer bacalhau com Natas na Tapada das Mercês e nunca mais o esqueci...

Há um bolo que nunca como porque, infelizmente, nunca aprendi a fazer que são mãos de Tia Eugénia e visitas de tio Zé a casa... o BOLO DE VINAGRE. (Se vires isto tia Eugénia manda receita para o meu face por favor).

Natal são BOLINHOS FRITOS da Ti Joaquina. De quem aprendi, entre tanta conversa e companhia na casa da cave ladeada de vasos com plantas verdejantes e sempre tão bem cuidadas, a fazer bolo de chocolate de caneca e açorda ralinha...

T.T. são CREPES. Não há massa de crepe que faça e que não me lembre do concurso de culinária, escola Secundária Gama Barros, que nós ganhámos... batoteiras, porque, quem resistiria a crepes com recheio de chocolate Galac? T.T. é muito mais comidas, não fosse termos vivido tanta coisa junta durante tantos anos... T.T. surge quando como espargos, queijo curado alentejano, cházinhos a meio da tarde, sopa de feijão verde e borrego, pão alentejano, azeitonas britadas, bolo pudim, tomatada de frango, bolo de brigadeiro... É basicamente uma açambarcadora de momentos culinários. 

SALADA DE ALFACE, bem esmifradinha, e cebola temperada com azeite e LIMÃO é dias de refeição no Barreiro com minha Adélia e seu Marinho. Vem a mim o calor dos gatos no colo e as tardes a costurar lantejoulas.

OVOS MAL COZIDOS são Branquinha. E eu a achar que é coisa fácil quando é umas das técnicas mais difíceis de acertar...

ARROZ DE CABIDELA só das mãos da Bé. Esse, é prato que não me atrevo a fazer... Porque é prato que tem tanto para correr mal que nem quero imaginar estragar uma memória gastronómica tão boa... Já lá vão uns anos menina Ana Rosa né?!

ARROZ DE ALHO FRITO é madrinha. Mais uma pouco fã de cozinhar mas que deixou marca com uma comidinha simples e boa.

ESPARGUETE À BOLONHESA são almoços com as colegas do secundário na casa da Bela... 

ROLO DE CARNE é tortura... Talvez a única comida que não consiga comer nesta vida... Comer seria relembrar o amargo de boca que foram os dois anos de colégio interno.

PERÚ NO FORNO são as milhentas refeições no refeitório do ISA, com colegas que se tornaram amigos e o relembrar de um colega que morreu cedo demais...

FIGOS e AMEIXAS é Algés. É subir às figueiras do quintal da avó e roubar fruta aos vizinhos. É brincar aos filmes de terror na casa assombrada. São os beijinhos atrás dos caniçais e o vestir das roupas de festa cheias de lantejoulas das irmãs das minhas amigas do bairro.

AZEITE são sempre viagens até às aulas do Professor Gouveia no ISA. Talvez a minha cadeira preferida da universidade.

BATATA DOCE é a ex e carinhosa sogra... Por estes dias ando com ela todos os dias...Ih Ih Ih!!!

MOLOTOV é Cristina. A melhor doceira que conheci até hoje e umas das amigas que mais me ensinou na cozinha. É dela também a memória dos meus primeiros túbaros... a graça que foi imaginar que estava a comer testículos de porco e que bem que me souberam...

GUIZADOS DE TOMATE são Ti Maria e casa cheia de filhos e netos...

PUDIM FLAN DO AVÔ são festas de anos na casa do Ricardo e do Carlitos...

POLVO FRITO E ARROZ DE FEIJÃO é Chez Lapin e primeia vez no Porto com a minha MAS.

De 5 anos de namoro já guardo no coração, na ementa mais doce e feliz, uma ementa que nunca pensei que fosse possível pagar tão pouco para receber tanto em troca. Amor para mim é sinónimo de frango com mil malaguetas, chamuças com croquetes de espinafres, bifes gordos e picantes, âlmondegas recheadas de queijo, rolos de frango com  cogumelos, tornedó com bacon, pizza caseira com montanhas de ingredientes, azeitonas da mercearia do nosso bairro (já vamos em 5kg de azeitonas cada um),  capuccinos, talhadas de queijo diárias com banana, petisquinhos, muitosss petisquinhos, copos de vinho fabulosos, baba de camelo, hambúrgueres simples que nunca são simples, cebola caramelizada, coelho disfarçado de frango... Muito amor e algum peso extra.

Acreditem que podia prolongar este post por mais umas 10 páginas... Tal é o poder da comida em mim.

Há uns meses dei por mim a chorar enquanto comia numa churrasqueira frango assado. A mesma churrasqueira onde a minha avó ia buscar o frango assado. Foi naquele momento que percebi o poder que a comida tem em mim... Como podia estar tão emocionada, quase ofegante de alegria e amor, por sentir o mesmo sabor e aroma dum simples frango assado?!

É um poder que sei que também tenho quando cozinho para os outros. Adoro acreditar que ao entregar tudo de mim aos pratos que dou aos meus amigos estou também a criar neles memórias culinárias que nunca mais iram sair deles.

Eu assumo que sou muito desligada da família e amigos, é coisa do feitio, não é defeito. Detesto longas horas ao telefone e visitas regulares são, quem me adora sabe, raras. Mas não há dia em que não os tenha no meu pensamento e coração porque afinal de contas todos os dias tenho que comer...


Adoro-vos e lembro-vos todos os dias nem que seja a descascar uma batata.

1 comentário:

Rui Leal disse...

Excelente post :) estava a ver que não punhas o meu frango bem condimentado.